O que você fez no seu aniversário de 22 anos? O que você pretende fazer?
O meu aniversário de 22 anos foi o mais diferente e o mais especial que eu vivi.
Eu tinha duas opções: ficar em Chandigarh e fazer uma festa com todos daqui, ou viajar e passar meu aniversário só com algumas pessoas (bastante importantes, que eu sei que iriam onde eu fosse para comemorar esse 20 de fevereiro). Mesmo que você não me conheça, mas tenha lido algum dos muitos postes desse blog, sabe qual foi a decisão que tomei!
Eu tinha mais de uma opção de lugar para ir, mas a minha decisão foi tomada cuidadosamente, após muito estudo sobre os lugares. Foi mais ou menos assim:
-Flávia, sabia que quando os Beatles vieram pra Índia, meditar, eles foram pra Rishikesh? E ainda escreveram 48 músicas lá. Todas as do White Album foram escr...
-É PRA LÁ QUE A GENTE VAI. SIMBORA ARRUMAR ESSAS MOCHILAS, PESSOAL!
Poucas horas depois desse diálogo elaboradíssimo, um amigo Indiano veio nos (nos = eu, brasileiro, peruano, holandesa) buscar e fomos para Rishikesh. Doze pessoas de diferentes países foram juntas para essa cidade a aproximadamente cindo horas de Chandigarh. Indianos, Holandesa, Peruano, Colombiana, Polonesa, Chinesa, Croata... tudo isso por conta de uma Brasileira aí.
No sábado conhecemos a cidade. Rishikesh é uma cidade sagrada, aos pés do Himalaya, cortada pelo rio Ganges. É considerada a capital mundial da yoga e meditação e durante todo o dia e em todos os lugares, pode-se ver pessoas meditando e fazendo yoga. É um lugar lindo e tranqüilo que traz um sentimento muito bom.
Lá pras 23h fomos todos para o teto do hotel esperar que chegasse meia noite, e começasse oficialmente o dia do meu aniversário. Como comentei antes, Rishikesh é uma cidade sagrada, por isso, mesmo que não seja proibida a venda de bebidas alcoólicas, não é lá muito fácil comprá-las. Essa mesma justificativa não cola quando o assunto é bolo! ( Queridos moradores de Rishikesh, não tem NADA de errado em fazer um bolinho para vender de vez em quando, né? Fica a dica!) Meus amigos indianos, convencidos em me dar um aniversário inesquecível, pegaram o carro e foram para uma cidade à uma hora de distância para comprar bolo e cerveja. Bolo inteiro não tinha, eles compraram várias fatias (de sabores diferentes) e as juntaram formando um bolo só; cerveja tampouco estava na promoção, então foram cinco cervejas para 12 pessoas. Das cinco, uma foi quebrada pela holandesa. Problema nenhum! Aqui quando algo de vidro é acidentalmente quebrado significa boa sorte!
A vista do teto do hotel era inacreditável! O Rio Ganges na frente, as montanhas nos cercando e o céu, que estava especialmente bonito nesse dia.
E, enfim, começou oficialmente o dia do meu aniversário: meia noite em ponto. Nos abraçamos; cantamos parabéns, não cortamos o bolo (haha), todos pegaram suas fatias e me deram a primeira mordida de cada uma (tradição indiana). Eu olhava ao meu redor e não acreditava o que estava acontecendo: eu estava no Himalaya! Aquelas montanhas, o céu, a lua, o barulho suave do rio sagrado, todas aquelas nacionalidades que em tão pouco tempo me queriam tão bem... me levantei e fui para um lugar mais afastado. Na minha frente só havia montanha, céu e rio; me ajoelhei. Entre meus amigos havia hindus, sikhs, ateus, agnósticos... todos entenderam instantaneamente e respeitaram com o silêncio o que eu fazia: agradecia ao meu Deus. E isso foi apenas o começo de um grande dia que começara mas continuava na escuridão. Fomos para o quarto e, com meus três amigos mais próximos comemoramos novamente, dessa vez do nosso jeito: com muita muita muita risada!
De uns tempos pra cá tenho tido muita vontade de meditar. Sorte a minha que não tinha melhor lugar que este! Acordamos muito cedo e fomos para a beira do rio, lá já estava, em meditação, metade dos moradores da cidade. Depois de muitas lições do instrutor, tive a oportunidade de embarcar em um profundo e silencioso mergulho em mim mesma! Nem meu vocabulário nem minha forma de escrever chegam perto de ser suficiente para descrever essa experiência! ( Experimente!).
Quando estávamos atravessando o rio alguém grita: “Flávia, olha Romeu e Julieta!”. Olho para o rio e vejo dois patos. Os indianos me explicam que só existem esses dois patos nessa parte do rio e que vê-los juntos é sinal de MUITA sorte! Eles são a reencarnação de Romeu e Julieta, e as pessoas estavam realmente muito felizes de estar vendo eles juntos! Bem, é fato que é melhor ter sorte vendo patos do que estourando cerveja no chão! Mas os dois no mesmo dia (ainda mais no seu aniversário) é melhor ainda! haha
Tomamos café da manhã e fomos para meu terceiro presente de aniversário: subir o Himalaya! (EU SUBI (N)O HIMALAYA NO MEU ANIVERSÁRIO DE 22 ANOS!) Subimos por uma hora e chegamos em uma cachoeira. A beleza daquele lugar eu posso tentar mostrar em uma foto, mas a tranqüilidade que ali habita, desculpem-me, mas vocês terão que vir para a Índia para entender.
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| A vista do Himalaya no Himalaya |
Voltamos para a cidade e fomos almoçar. No caminho para o restaurante encontramos um Baba conhecido dos meus amigos indianos. Todos tentaram me explicar o que exatamente era um baba: definitivamente SEM sucesso. Juntando tudo o que todo mundo disse, o Baba é um homem humilde, de bom coração, muito evoluído espiritualmente e de enorme sabedoria. Não existem muitos Babas no mundo, e a gente ter encontrado esse Baba conhecido no caminho foi maravilhoso. Fomos para a varanda do lugar onde ele mora, sentamos no chão e escutamos palavras sábias do Baba. Ele me deu de presente de aniversário um Japamala ( http://pt.wikipedia.org/wiki/Japamala ) e me abençoou. Antes de sair me falou: “Sathya Sai Baba diz que o caminho para Deus é que você comece o dia com amor, viva o dia com amor, preencha o dia com amor e, ao fim, termine o dia com amor, não esquece nunca isso, viu menina? Espero que você tenha gostado do presente!”. Mal sabe o Baba que o melhor presente foram essas palavras finais...
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| Com o Baba |
Durante o almoço (em um restaurante lindo) um dos indianos disse que eu tinha que ir me molhar nas águas sagradas do Ganges para agradecer aos deuses e pedir bênçãos. (A verdade é que eu jamais sairia dali sem colocar os pés no Ganges, né!?). Comemos e descemos para o rio. Tirei meu sapato e fui entrar no Ganges. Nesse momento um amigo me diz:
-Flávia, pára e pensa bem! Estás prestes a tocar na água do rio Ganges!
Parei. Refleti. Busquei significados. Entrei. Passei alguns minutos ali absolutamente emocionada. Então, o amigo que sugeriu que eu entrasse no rio fala: “Pede bênçãos aos deuses!”. Em um ato automático me abaixei, molhei minha mão direita e fiz o sinal da cruz! Só percebi o que tinha feito quando vi todo mundo rindo! Ri também! “Isso é que é unir as culturas e as religiões!” – alguém comentou! De fato... Tenho certeza que Deus, Bhrama, Shiva e Vishnu também riram muito lá no céu! hahaha
Depois, fomos todos para o templo hindu à beira do rio para que eu recebesse uma bênção especial do sacerdote. Subimos até o último andar do templo onde estavam os sacerdotes esperando a última benção do dia, que por extremo acaso (ou não, como falei no post passado) era eu. Entrei no pequeno espaço de adoração com um amigo indiano que traduzia para mim o que estava acontecendo e o que eu deveria fazer. Todos os meus outros amigos ficaram do lado de fora observando tudo. O ritual levou aproximadamente 15 minutos, mas lá dentro parecia um tempo enorme! Tinha fogo, incenso, flores e um sentimento muito bom de que, na crença deles e do jeito deles, muitas coisas boas me estavam sendo desejadas. Ao fim, amarraram um cordão vermelho em mim, cordão esse que quando sair do meu braço não será pelas minhas mãos, e será guardado com o mesmo carinho que eu senti naquele ritual. Quando sai, abracei meus amigos e descemos todos os andares do templo em silêncio, pensando na energia daquele lugar e daquele ritual. ![]() |
Ritual no Templo Hindu |
Fomos para o mercado de onde originou alguns presentinhos que ganhei, jantamos em um bom restaurante, nos arrumamos, e voltamos para Chandigarh. Voltamos com as mesmas mochilas, no mesmo carro, do mesmo jeito... mas agora pessoas, por algum motivo, diferentes. E acredite: essa diferença, para mim, vai muito além da mudança de um número ao responder a um “Quantos anos você tem?”.
E só pra terminar a música:
... that you are part of everything.
Dear Prudence - The Beatles. Composta em Rishkesh em 1968



